As estatísticas sobre a violência contra a mulher no Brasil são alarmantes. A cada 6 horas, uma mulher é vítima de feminicídio. De acordo com o Atlas da Violência, no Brasil, cerca de 50 mil mulheres foram assassinadas entre 2012 e 2022, e 220 mil mulheres de todas as idades foram vítimas de algum tipo de agressão. Esses números não representam apenas vidas perdidas, mas a falha sistêmica de uma sociedade que não consegue proteger metade de sua população. Os dados estão aí, escancarados em relatórios e manchetes, mas a pergunta que realmente importa é: como podemos, de fato, resolver essa crise?
A resposta não é simples e exige uma abordagem multifacetada. A violência de gênero não é um problema isolado, mas o reflexo de estruturas sociais, culturais e econômicas que perpetuam a desigualdade. Para combatê-la, não basta punir o agressor; é preciso reeducar a sociedade, fortalecer as vítimas e garantir que a rede de apoio funcione de maneira eficaz.
A raiz da violência contra a mulher reside em crenças e comportamentos enraizados, muitas vezes transmitidos de geração em geração. Essa violência, em muitos casos, é reflexo de um ódio profundo e misógino, onde homens se sentem no direito de agredir e humilhar mulheres por motivos banais ou, aparentemente, “sem motivo”, o que na verdade esconde uma aversão e um sentimento de posse que são, em si, o real e cruel motivo.
A educação é, portanto, a primeira e mais poderosa ferramenta de mudança. É fundamental que as escolas incluam em seus currículos a discussão sobre igualdade de gênero, respeito e relacionamentos saudáveis. É preciso desconstruir a ideia de que a mulher é inferior ou que seu papel se limita ao ambiente doméstico.
Além da educação formal, campanhas de conscientização em massa são essenciais para romper o silêncio e encorajar as denúncias. É preciso que a sociedade entenda que a violência não é um problema privado, mas uma questão de saúde pública e de direitos humanos.
A Lei Maria da Penha foi um marco, mas a sua aplicação ainda encontra barreiras. A rede de apoio às vítimas, que inclui delegacias especializadas, centros de referência, abrigos e o sistema de justiça, precisa ser fortalecida. É necessário aumentar o número de delegacias da mulher e garantir que o atendimento seja humanizado e eficaz. Muitas mulheres, ao procurar ajuda, se deparam com a desconfiança ou a falta de preparo dos profissionais.
Os abrigos temporários são cruciais para oferecer segurança e apoio psicológico e jurídico. No entanto, o número de vagas ainda é insuficiente. É preciso também que o sistema de justiça seja mais ágil na emissão de medidas protetivas e que a fiscalização de seu cumprimento seja rigorosa.
A dependência financeira é um dos principais motivos pelos quais muitas mulheres não conseguem se libertar de relacionamentos abusivos. A violência não é apenas física, mas também patrimonial e psicológica. Oferecer à mulher autonomia econômica é, portanto, uma das chaves para a sua emancipação.
Programas de capacitação profissional, acesso a microcrédito e políticas que combatam a disparidade salarial são medidas concretas que podem fazer a diferença. Quando uma mulher tem seu próprio sustento, ela tem mais poder para decidir sobre sua vida e romper com o ciclo de violência.
Apesar de os dados serem sombrios, a violência contra a mulher não é uma causa perdida. A solução está ao nosso alcance, mas exige um esforço conjunto e a conscientização de que o combate à violência de gênero é uma responsabilidade de todos. A mudança começa com a nossa voz, com a nossa atitude e com a nossa capacidade de reconhecer que a vida e a dignidade de cada mulher importam.