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Os dados estão aí mas como podemos resolver isso?
Maria Izabel Simões

Maria Izabel Simões

Diretora financeira da Fundação 1º de Maio

Os dados estão aí mas como podemos resolver isso?
Os dados estão aí, escancarados em relatórios e manchetes, mas a pergunta que realmente importa é: como podemos resolver essa crise?

As estatísticas sobre a violência contra a mulher no Brasil são alarmantes. A cada 6 horas, uma mulher é vítima de feminicídio. De acordo com o Atlas da Violência, no Brasil, cerca de 50 mil mulheres foram assassinadas entre 2012 e 2022, e 220 mil mulheres de todas as idades foram vítimas de algum tipo de agressão. Esses números não representam apenas vidas perdidas, mas a falha sistêmica de uma sociedade que não consegue proteger metade de sua população. Os dados estão aí, escancarados em relatórios e manchetes, mas a pergunta que realmente importa é: como podemos, de fato, resolver essa crise?

A resposta não é simples e exige uma abordagem multifacetada. A violência de gênero não é um problema isolado, mas o reflexo de estruturas sociais, culturais e econômicas que perpetuam a desigualdade. Para combatê-la, não basta punir o agressor; é preciso reeducar a sociedade, fortalecer as vítimas e garantir que a rede de apoio funcione de maneira eficaz.

A raiz da violência contra a mulher reside em crenças e comportamentos enraizados, muitas vezes transmitidos de geração em geração. Essa violência, em muitos casos, é reflexo de um ódio profundo e misógino, onde homens se sentem no direito de agredir e humilhar mulheres por motivos banais ou, aparentemente, “sem motivo”, o que na verdade esconde uma aversão e um sentimento de posse que são, em si, o real e cruel motivo.

A educação é, portanto, a primeira e mais poderosa ferramenta de mudança. É fundamental que as escolas incluam em seus currículos a discussão sobre igualdade de gênero, respeito e relacionamentos saudáveis. É preciso desconstruir a ideia de que a mulher é inferior ou que seu papel se limita ao ambiente doméstico.

Além da educação formal, campanhas de conscientização em massa são essenciais para romper o silêncio e encorajar as denúncias. É preciso que a sociedade entenda que a violência não é um problema privado, mas uma questão de saúde pública e de direitos humanos.

A Lei Maria da Penha foi um marco, mas a sua aplicação ainda encontra barreiras. A rede de apoio às vítimas, que inclui delegacias especializadas, centros de referência, abrigos e o sistema de justiça, precisa ser fortalecida. É necessário aumentar o número de delegacias da mulher e garantir que o atendimento seja humanizado e eficaz. Muitas mulheres, ao procurar ajuda, se deparam com a desconfiança ou a falta de preparo dos profissionais.

Os abrigos temporários são cruciais para oferecer segurança e apoio psicológico e jurídico. No entanto, o número de vagas ainda é insuficiente. É preciso também que o sistema de justiça seja mais ágil na emissão de medidas protetivas e que a fiscalização de seu cumprimento seja rigorosa.

A dependência financeira é um dos principais motivos pelos quais muitas mulheres não conseguem se libertar de relacionamentos abusivos. A violência não é apenas física, mas também patrimonial e psicológica. Oferecer à mulher autonomia econômica é, portanto, uma das chaves para a sua emancipação.

Programas de capacitação profissional, acesso a microcrédito e políticas que combatam a disparidade salarial são medidas concretas que podem fazer a diferença. Quando uma mulher tem seu próprio sustento, ela tem mais poder para decidir sobre sua vida e romper com o ciclo de violência.

Apesar de os dados serem sombrios, a violência contra a mulher não é uma causa perdida. A solução está ao nosso alcance, mas exige um esforço conjunto e a conscientização de que o combate à violência de gênero é uma responsabilidade de todos. A mudança começa com a nossa voz, com a nossa atitude e com a nossa capacidade de reconhecer que a vida e a dignidade de cada mulher importam.