No próximo dia 4 de outubro, o Brasil realizará sua décima eleição geral desde a redemocratização, escolhendo presidente da República, governadores, deputados estaduais e federais e senadores.
A campanha eleitoral está a pleno vapor e o debate político ocupa agora espaço central nas rodas de conversa. Gostando ou não de política, é ela quem vai definir áreas importantes da nossa vida.
Mas chegar a mais uma eleição não significa, necessariamente, chegar a ela com entusiasmo. Em meio à polarização, à desinformação e ao desgaste da confiança nas instituições, uma parcela significativa da população parece se relacionar com a política mais pela frustração, pela desconfiança ou pela rejeição do que pelo sentimento de pertencimento e participação.
Uma pesquisa conduzida pelo Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) mostrou que 69% dos brasileiros não se enquadram no perfil de uma polarização afetiva estrita, aquela em que a pessoa nutre sentimentos positivos pelo campo político com o qual se identifica e rejeita intensamente o outro.
O dado, à primeira vista, pode parecer positivo. Afinal, uma sociedade menos polarizada poderia estar mais aberta ao diálogo. Mas não é necessariamente isso que acontece. Não estar polarizado não significa, por si só, estar aberto a outras perspectivas políticas. Também pode significar estar distante, frustrado ou desconfiado da política.
E esse talvez seja um dos grandes desafios da democracia contemporânea: não apenas lidar com quem rejeita o outro lado, mas também com quem deixou de acreditar que a política possa produzir alguma mudança.
A democracia não depende apenas de instituições funcionando, eleições regulares e regras sendo respeitadas. Ela também precisa de cidadãos que compreendam como essas instituições funcionam, reconheçam a legitimidade do conflito político e se sintam capazes de participar da vida pública. É nesse ponto que a educação política ganha importância.
Democracia também se aprende
Ninguém nasce sabendo como funciona o Estado, quais são as atribuições de um vereador, deputado ou senador, como uma lei é aprovada, de que maneira se acompanha o orçamento público ou quais são os instrumentos disponíveis para participar das decisões que afetam a própria comunidade.
Outro ponto importante: a educação política não deve ser confundida com formação partidária. Seu objetivo não é dizer em quem votar ou qual posição política adotar, mas sim oferecer instrumentos para que ele possa construir suas próprias escolhas e exercer sua cidadania com autonomia.
Em 13 de julho de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.468, publicada no Diário Oficial da União no dia seguinte. A legislação altera a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e estabelece a educação política e os direitos da cidadania como componente curricular obrigatório da educação básica.
Uma lei para implementar a educação política nas escolas é importante. Mas existe uma questão ainda mais profunda: a ideia de que a escola deve preparar para a cidadania não nasceu agora. A própria Constituição Federal de 1988 estabelece, em seu artigo 205, que a educação é direito de todos e deve promover o pleno desenvolvimento da pessoa, sua preparação para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
A nova legislação está em vigor, mas ainda não foi aplicada. Ainda será necessário regulamentar sua implementação, definir diretrizes e estabelecer como esse conteúdo será incorporado ao currículo das escolas.
Conhecer para participar
Uma democracia saudável não é aquela em que todos pensam da mesma maneira. É aquela em que pessoas diferentes conseguem participar de um espaço comum, defender suas ideias, discordar, negociar e reconhecer que as regras democráticas precisam valer para todos. Para isso, é preciso conhecimento, que transforma o conflito político em debate.
À medida que nos aproximamos de mais uma eleição, podemos discutir não apenas em quem as pessoas vão votar, mas também como elas chegam a essa escolha, quais informações utilizam, o quanto conhecem sobre o funcionamento das instituições e se percebem a política como um espaço do qual também fazem parte.
A democracia não se fortalece apenas quando mais pessoas votam. Ela se fortalece quando mais pessoas compreendem que têm direitos, responsabilidades e voz na construção da sociedade.