Em um mundo cada vez mais digitalizado e interconectado, o acesso à informação é tido como um direito fundamental e uma ferramenta essencial para o exercício pleno da cidadania. No entanto, para cerca de 9 milhões de brasileiros que convivem com o analfabetismo, essa premissa está longe de ser uma realidade. A dificuldade em decodificar textos e compreender conteúdos escritos ergue uma barreira invisível que os exclui de esferas cruciais da vida em sociedade, desde a saúde até a participação política e, principalmente, o mercado de trabalho.
O impacto dessa exclusão é complexo. Na área da saúde, por exemplo, informações vitais sobre prevenção de doenças, medicamentos e acesso a tratamentos muitas vezes são veiculadas por meio de materiais impressos ou digitais. Para quem não sabe ler, isso se traduz em maior vulnerabilidade, menor adesão a tratamentos e, consequentemente, piores indicadores de saúde. A pandemia de COVID-19 evidenciou essa lacuna de forma dramática, com campanhas de conscientização e informações sobre vacinação sendo divulgadas em formatos inacessíveis para essa parcela da população.
No âmbito dos direitos e deveres civis, a situação não é menos preocupante. O analfabetismo pode dificultar o entendimento de documentos legais, a participação em processos eleitorais de forma consciente e o acesso a programas sociais que exigem preenchimento de formulários ou leitura de editais. Essa limitação compromete a autonomia e a capacidade de reivindicar direitos, tornando esses cidadãos mais suscetíveis à exploração e à marginalização.
Para o mercado de trabalho, a ausência de letramento é um obstáculo gigantesco. Vagas que demandam o mínimo de leitura e escrita são inacessíveis, relegando muitos a funções informais e de baixa remuneração. Mesmo em trabalhos que não exigem leitura direta, a falta de acesso a informações sobre capacitação, direitos trabalhistas e oportunidades de emprego limita severamente o desenvolvimento profissional e a mobilidade social.
Apesar dos avanços na democratização do acesso à internet e a proliferação de conteúdos digitais, a solução não é tão simples quanto parece. A “inclusão digital” não se traduz automaticamente em “inclusão informacional” para quem não domina a leitura. Páginas da web, aplicativos e redes sociais ainda dependem majoritariamente da linguagem escrita para transmitir suas mensagens. Iniciativas de áudio e vídeo podem ajudar, mas não substituem a necessidade de compreender informações em texto.
É importante que políticas públicas e iniciativas da sociedade civil se voltem para a superação desse desafio. Programas de alfabetização de jovens e adultos precisam ser fortalecidos e adaptados às realidades e necessidades desse público. Além disso, a produção de informações em formatos acessíveis, como vídeos com linguagem simples, áudios e materiais visuais, deve ser ampliada e difundida de forma estratégica. A criação de canais de comunicação diretos e o treinamento de agentes comunitários para disseminar informações verbalmente também se mostram cruciais.
A garantia do acesso à informação para essas pessoas não é apenas uma questão de inclusão, mas de justiça social e de fortalecimento da democracia. Somente assim será possível construir uma sociedade verdadeiramente informada, participativa e equitativa para todos.