Envelhecer com saúde também depende de vínculos, participação social e políticas públicas
Duas campanhas acompanham o mês de setembro: Setembro Amarelo e Setembro Lilás. A primeira é mais explorada pela mídia e empresas, chamado atenção para a saúde mental e a prevenção do suicídio; já a segunda, visa ampliar o debate sobre a doença de Alzheimer, outras demências e os desafios do envelhecimento.
Mas existe entre esses temas um ponto de encontro que nem sempre recebe a atenção necessária: os vínculos sociais.
A aposentadoria, a perda de familiares e amigos, a redução da mobilidade, o surgimento de doenças e a perda de autonomia podem diminuir as oportunidades de convivência. Quando esses fatores se acumulam, o isolamento pode se tornar parte da rotina. Surgem então duas perguntas: até que ponto a solidão é uma experiência individual? Quando ela passa a ser uma questão de interesse público
A resposta é: embora seja vivida individualmente, suas causas e possibilidades de enfrentamento também passam pela forma como organizamos nossa vida em sociedade.
Quando a solidão afeta a saúde
O Ministério da Saúde reconhece que a solidão e o isolamento social podem afetar negativamente a saúde da pessoa idosa e recomenda a participação em atividades sociais, voluntárias e grupos de convivência. Essa discussão ganha ainda mais relevância diante dos dados sobre saúde mental.
Segundo dados do mesmo Ministério, entre 2011 e 2016, a taxa de mortalidade por suicídio entre pessoas com 70 anos ou mais foi de 8,9 por 100 mil habitantes, acima da média nacional de 5,5 por 100 mil. Entre os homens dessa faixa etária, a taxa chegou a 17,1 por 100 mil.
Pesquisas ainda apontam a relação entre saúde mental, isolamento e falta de suporte social na população idosa. O próprio Ministério destaca que o suicídio tem causas múltiplas e que fatores como solidão, violência, perdas e transtornos mentais podem aumentar a vulnerabilidade.
Isso não significa estabelecer uma relação direta entre solidão e suicídio. Significa reconhecer que a ausência de vínculos e de suporte social pode fazer parte de um conjunto de vulnerabilidades que precisa ser percebido e acompanhado.
É justamente aí que Setembro Amarelo e Lilás se encontram: na necessidade de reconhecer a pessoa idosa para além de suas necessidades de cuidado. Ela continua tendo desejos, escolhas, relações, projetos e necessidades sociais, como em qualquer outra fase da vida. Envelhecer não deveria significar desaparecer da vida social.
Uma praça segura, um transporte acessível, um centro de convivência, uma atividade cultural ou um programa de inclusão digital podem parecer ações distintas. Na prática, todos podem contribuir para manter a pessoa idosa conectada à comunidade.
Criar oportunidades de convivência também é uma forma de cuidar da saúde.
Essa perspectiva está presente no programa do Solidariedade para a população idosa, que propõe, entre outras iniciativas, a implantação de Núcleos de Convivência do Idoso e Centros-Dia, atividades de lazer e cultura, inclusão digital, mobilidade urbana adequada e ações de convivência intergeracional.
A proposta amplia a compreensão sobre envelhecimento: cuidar não significa apenas tratar doenças, mas também criar condições para que as pessoas continuem participando da sociedade.
Informação também é política pública
Quando falamos de Alzheimer e outras demências, essa responsabilidade se torna ainda mais evidente. A Linha de Cuidado do Ministério da Saúde prevê a atuação da Atenção Primária no acompanhamento das pessoas com demência, considerando também os impactos sobre familiares e cuidadores. A rede deve articular saúde, assistência social e atenção especializada quando necessário.
No Congresso Nacional, o PL 1.933/2021, apresentado pelo deputado Aureo Ribeiro, então pelo Solidariedade, propõe a criação de um Cadastro Nacional de Pessoas com Alzheimer e outras doenças demenciais. A proposta foi aprovada pela Câmara e atualmente aguarda apreciação pelo Senado Federal.
A iniciativa parte de um princípio básico da gestão pública: é preciso conhecer a realidade para planejar políticas capazes de responder a ela. Um cadastro não resolve sozinho os desafios do Alzheimer, mas evidencia como uma questão que muitas vezes parece restrita à família também exige informação, legislação, planejamento e ação do Estado.
Cuidar dos vínculos também é fazer política
A solidão pode ser sentida individualmente, mas não precisa ser enfrentada apenas individualmente.
Uma cidade com espaços de convivência, serviços públicos preparados, mobilidade, cultura e oportunidades de participação também é uma cidade que cuida da saúde mental de quem envelhece.
Uma sociedade democrática não deve apenas garantir que as pessoas vivam mais, mas que elas tenham condições para que continuem vivendo com vínculos, autonomia, participação e dignidade.