Fique por Dentro

A maternidade no jogo das relações desiguais

duas mãos adultas em forma de concha segurando um pé de um bebê
Publicado em: 20/março/17   |   Autor: Daniella Boccuto - Cientista Social

Uma das condições anatômicas que mais diferem os homens das mulheres está na capacidade de geração de uma nova vida no útero feminino. Essa particularidade também entra no jogo das desigualdades entre os gêneros, manipulada para contribuir com essa disparidade. Ser mãe em uma sociedade machista como a nossa representa uma série de dificuldades na vida da mulher. Antes, durante e depois desse processo natural e magnífico muitas violações aos direitos das mulheres acontecem e pouco falamos sobre isso. A decisão de ter filhos pode vir imposta por uma coerção social que age de maneira a limitar a existência feminina à reprodução, uma violência sutil contra a mulher. Ela pode ser pressionada, muitas vezes por familiares, a passar pela maternidade sem estar preparada emocional e psicologicamente, o que é capaz de gerar repercussões negativas em sua vida, como depressão e ansiedade.

Não tão sutil, mas ainda assim velada, é a violência obstétrica, um problema real e urgente no Brasil. Uma em cada 4 mulheres sofreu algum tipo de violência no processo do parto, que vai desde negar ou dificultar o atendimento à gestante, gritar, deixá-la sem água ou comida, proibir a entrada de acompanhante até a coagir a gestante a passar por uma cesariana para a conveniência do médico. A maternidade é encarada como responsabilidade da mulher, fazendo com que recaia sobre ela todas as tarefas que envolvem criar um bebê. Todos os aspectos da maternidade são vigiados e a mãe se torna o principal alvo para culpabilização por quaisquer aspectos negativos da sua cria ou seu papel enquanto mãe. O foco central na mulher faz com que a figura paterna seja esquecida, isenta de responsabilidades. Criar um filho é uma responsabilidade que deve ser compartilhada entre duas pessoas e requer alto investimento de tempo e dedicação. A parceria de casal para cuidar do desenvolvimento das crianças é obscurecida na cultura patriarcal e machista, onde o compromisso recai desproporcionalmente sobre as mulheres. Como resultado, muitas mulheres acabam exercendo múltiplas e desgastantes, física e emocionalmente, jornadas de trabalho. Realidade bem conhecida na sociedade brasileira.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), no mercado de trabalho as mulheres chegam a trabalhar quase 5 horas a mais que os homens e ainda assim recebem 26% a menos que eles. Já no âmbito doméstico, é gasto por elas cerca de 21 horas a mais de tarefas sem nenhum tipo de remuneração, enquanto para os homens o tempo gasto com os afazeres cai para menos da metade. A extensão da coerção social machista merece um olhar questionador com urgência, pois a mesma repercute nos mais variados âmbitos da vida. A maternidade não escapa disso e acaba sendo limitada e dificultada para as mulheres através da imposição de deveres insustentáveis e para os homens que tendem a ser distanciados desse processo. Insistir nesse tipo de debate é fundamental para promover a mudança de hábitos culturais limitantes. Contudo, já é possível notar uma mudança nesse padrão desigual de encarar a maternidade, um exemplo disso é a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 110/2011, atualmente disponível para consulta pública, que prevê alteração da licença maternidade de 120 dias para licença natalidade de 180 dias, ampliando o direito para ambos os pais da criança.

*A análise crítica que fazemos aqui está centrada no desenvolvimento de relações heterossexuais, pois elas tendem a explicitar de forma surpreendente a condição de subalternização da mulher enquanto mãe, embora saibamos que a constituição de uma família e a experiência de educar uma criança não se limite de forma alguma aos casais heterossexuais.

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