Fique por Dentro

ONG’s indígenas atuam onde o Estado se ausenta

Indígenas em canoas no Pará
Publicado em: 30/agosto/19   |   Autor: Laura Luz

No Brasil, organizações não governamentais trabalham em prol das causas indígenas prestando atendimento social, como entrega de alimentos, roupas e remédios. Entretanto, não é função do Estado oferecer o mínimo de dignidade? A Constituição garante direito à moradia, alimentação, educação e saúde. Ainda assim, segundo o IBGE, 38% dos indígenas vivem em extrema pobreza e 52,9% não possuem nenhum tipo de renda.

Com essa realidade, organizações, como a ONG Pena Indígena, se responsabilizam pelo atendimento de aldeias em estado de vulnerabilidade social. Fundada em 2016, atende quatro aldeias em São Paulo, distribuindo donativos, além de realizar trabalho de incentivo cultural e educacional, oferecendo oficinas e reforços de matérias escolares para indígenas. 

Estereotipados de forma primitiva, as necessidades indígenas passam despercebidas pelas autoridades. “Para o Estado, os indígenas não existem. Eles lutam cada vez mais, todos os dias, para sobreviver. Não deveria ser assim”, afirma o professor e fundador da ONG Pena Indígena, Thiago Zagare.

Os programas assistenciais do Governo Federal, como Bolsa Família, são um dos benefícios recebidos por alguns indígenas. Ainda assim, o valor não é suficiente para as necessidades básicas. “Uma mãe pediu uma mamadeira para mim, porque ela não tinha como comprar. Não tinha nem leite. Ela ia amassar canjica e fubá para o filho beber. É isso que acontece na maioria das aldeias. Falta recurso, falta tudo”, conta Thiago.

Além das dificuldades de acesso aos direitos básicos, a questão de território fica cada vez mais complexa com a demarcação de terra em pauta no Senado. Na atual conjuntura do país, o que resta para os nativos que já habitavam o território brasileiro antes da colonização, que viram seu povo sendo dizimado, sua cultura ser desprezada e sua existência anulada? “Você não pensa em um projeto de Brasil sem os povos indígenas. A mentalidade do atual governo é atrasada, imaginando que os índios são manipulados pelos interesses de ONG’s. Na verdade, são os povos indígenas, a partir de seus interesses, que fazem parcerias com as ONG’s”, afirma o antropólogo e professor da UFABC, Luís Roberto de Paula.

“Os indígenas recebem ameaças por conta da demarcação. Tem gente colocando fogo nas terras. No Jaraguá, foram duas queimadas em menos de um ano. É para expulsar mesmo. Não querem mais os indígenas nas terras que são deles”, conta Thiago sobre a situação das aldeias que são atendidas pela ONG.

Enquanto o Estado se ausenta da responsabilidade constitucional, as ONG’s assumem esse papel. Contudo, as organizações não conseguem atender toda a demanda, restando ainda indígenas em estado de vulnerabilidade. Após resistirem a invasões, doenças, fome, escravidão e ao tempo, será que os povos indígenas resistem ao descaso e abandono do poder público? 


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